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Comentários - O mercado e os relacionamentos humanos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 05/05/2013

logo_avvenireImpressiona ver a quantidade de salas de cinema que se fecham nestes tempos de crise. O encerramento de uma sala não é só o fim de uma empresa. O cinema é também o ícone de um uso relacional do tempo que hoje encontra cada vez menos lugar numa sociedade onde o consumo está a assumir cada vez mais os contornos do indivíduo só e solitário. É a lei do mercado, dir-se-á. De um certo mercado anónimo, seria necessário acrescentar, que preenche com as suas mercadorias aquelas solidões que ele mesmo cria.

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Não é necessário incomodar economistas e sociólogos para compreender que há uma diferença radical entre a experiência que faz quem vê um filme no cinema e quem vê o mesmo filme em casa, sobretudo se o primeiro é visto com amigos e o segundo sozinhos, porventura diante do computador. Quando se sai para ir ao cinema juntamente com amigos, preparamo-nos, investimos tempo na escolha que é fruto de diálogo com os outros, um diálogo que leva frequentemente a ver filmes que nunca teríamos visto se tivéssemos seguido unicamente os nossos gostos pessoais (descobri filmes esplêndidos para alegrar um amigo). Fala-se antes e, sobretudo, após o filme, um filme que de simples produto se transforma assim num encontro, onde à “mercadoria” se juntam outros bens, entre os quais são fundamentais aqueles bens relacionais que produzimos e consumimos juntos. Acontece também voltar ao cinema para rever o mesmo filme com outros amigos, porque agrada-nos ver se o nosso amigo se comove exatamente naquelas passagens nas quais me emocionei (e me re-emociono) também eu. A mútua “correspondência de sentimentos” (estar conscientes de que se está a experimentar juntos a mesma emoção), dizia Adam Smith há dois seculos e meio, é uma das principais fontes de felicidade. Este cruzamento de bens-emoções-relacionamentosnormalmente não acontece ou acontece de modo de modo mais empobrecido, no consumo individual de vídeo em casa para não falar do visionamento de obras-primas na TV. Todos sabemos que “Amarcord no cinema” e “Amarcord no computador” são duas realidades, dois bens muito diferentes – pena é que nos sejam apresentados (e vendidos) como idênticos.

E abre-se aqui uma reflexão muito mais geral. Até há tempos recentes, para poder “consumir” alguns bens (arte, cultura, festa, música, religiões, desporto, política, jogo, escola, cuidados e muito mais) devia necessariamente estar junto com os outros. A esses bens estavam indissociavelmente ligados também os bens relacionais. A música ouvia-se em concertos ou em salões de baile, o desporto nos campos ou pavilhões e ao cinema ia-se juntos. A invenção do mercado consente hoje e sempre mais, separar em muitos bens a componente relacional daquela propriamente individual. Posso ouvir sozinho música com a Ipod e, depois, quando e se quiser, sair com os amigos. Posso correr sozinho (com o Ipod), cruzando-me nos parques com muitos outros corredores solitários sem encontrar nenhum e, depois, se e quando quiser, cultivar as minhas amizades. O mesmo acontece com os filmes, com a política (passou-se dos comícios na praça a monólogos no sofá com políticos televisivos) e já também com a Universidade (em breve “compraremos” exames e títulos on-line sem necessidade de encontrar ninguém) numa progressiva separação das mercadorias dos relacionamentos humanos. Substituímos o relacionamento “eu-tu” (através da mercadoria) com o relacionamento “eu-mercadoria” e “tu-mercadoria”, remetendo o “nós” para um segundo, futuro, momento.

Este é o humanismo do mercado capitalístico (não de todo o mercado), do indivíduo, da liberdade de escolha. Também estes são valores do Ocidente e das suas raízes cristãs, que desempenharam uma função decisiva na libertação dos indivíduos de muitos, demasiados, relacionamentos não escolhidos, de “bailes” com as pessoas erradas e não amadas. Mas os estudos sobre o bem-estar das pessoas dizem-nos no entanto coisas que é bom ter presente para avaliar bem os benefícios do mercado juntamente com os seus custos e procurar porventura reformá-lo. A oferta de muitos bens depurados e esterilizados por relacionamentos pessoais tem visto, nas últimas décadas, uma aceleração impressionante. A concorrência de mercado, unida ao progresso técnico, baixa os custos dos bens e os custos monetários mas, sobretudo, os custos em termos de tempo.

Custa assim sempre menos tempo ver um filme em casa: nem tenho de sair, nem sequer levantar-me da cama. Mas – e eis aqui o ponto – sair de casa para ir ao cinema ou praticar desporto/esporte com os amigos, custa mais ou menos como há cem anos, para não falar do “custo” do investimento (de tempo, recursos, amor…) numa amizade ou numa família que custa, mais ou menos, como há mil anos. Para além disso é arriscado o tempo e os recursos investidos numa amizade, pode ferir-nos quando falta a reciprocidade. Por uma lei económica muito simples sabemos que quando o preço de um bem (mercadoria) desce muito e o custo do outro (bens relacionais) permanece constante, é como se o segundo custasse muito mais. Por outras palavras, um mercado que para aumentar as minhas liberdades me separa as mercadorias dos relacionamentos, na realidade está a tornar também muito custosos os bens relacionais. “Há dias – contou-me um meu colega – tinha pedido ao pai para irmos juntos ao concerto do coro de minha mulher. Toco à campainha e ele diz-me que tinha mudado de ideias. Compreendia-o: chovia, vestir-se, sair... era muito mais “custoso” que estar no sofá em frente de um filme”. E depois acrescentou: «Na manhã seguinte ter-se-á arrependido». O que fazer então? Podemos fazer pouco, mas alguma coisa sim. Antes de mais com a taxação dos bens que tem também a finalidade de favorecer os bens socialmente meritórios (e hoje os bens relacionais são-no, num mundo de crise de ligações e, por isso, de felicidade). Mas também com a educação.

Um primeiro passo poderá ser o de inserir nas escolas a educação ao consumo e ao relacionamento com os bens, ensinando a distinguir entre o consumo de mercadorias que são mercadorias e basta, dos bens relacionais que são também um investimento em vida boa. E depois ponhamos a tecnologia ao serviço dos relacionamentos. Penso naqueles círculos culturais, naquelas paróquias, onde hoje com uma despesa muto contida podem adquirir um projetor vídeo de qualidade e recriar novos 'cinematógrafos'. E podem assim recriar a magia do cinema, a alegria dos relacionamentos, das comunidades que hoje se estão a empobrecer demasiado, empobrecendo-nos a todos.


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Comentários - O mercado e os relacionamentos humanos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 05/05/2013

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Precisamos de um outro filme

Comentários - O mercado e os relacionamentos humanos por Luigino Bruni publicado em Avvenire dia 05/05/2013 Impressiona ver a quantidade de salas de cinema que se fecham nestes tempos de crise. O encerramento de uma sala não é só o fim de uma empresa. O cinema é também o ícone de um uso relacional d...
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Comentários - Esta Itália, este 1º de Maio

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 01/05/2013

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Este primeiro de Maio é uma festa mista. Mas sempre é uma festa, e é bom que seja assim. Uma festa com os cartazes do trabalho, e com os do não-trabalho. Uma festa acompanhada de lágrimas, por vezes verdadeiras depressões, dos desempregados, de quem perdeu o trabalho ou de quem, jovem, não o encontra. Hoje devemos escutá-los mais e melhor que ontem, pormo-nos a seu lado. Devemos festejar o trabalho, acima de tudo quando sofre e está em crise, porque as festividades são preciosas nos tempos da provação, quando se atravessam os desertos, quando nasce a nostalgia das "cebolas" da escravidão no Egito.

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Mas não esquecemos as lágrimas de quem não pode trabalhar no dia anterior e no dia seguinte ao da festa, se queremos que a de hoje seja verdadeiramente festa da República, festa de toda a Itália. A fusão, hoje, entre a festa do primeiro de maio e aquela de dois de junho, será talvez a única redução aceitável de dias feriados, porque quando não há trabalho, ou é mau, demasiado precário e inseguro, é a parede mestra da República que cai, que é a primeira parede de cada casa. A taxa indecente de desemprego é a primeira taxa na nossa Casa comum; uma taxa desumana, esta sim, que devemos imediatamente revogar. A do trabalho está a tornar-se na maior escassez da nossa sociedade, uma escassez que convive, como todas as carências da História, com a opulência de tantos, para quem a crise da gente pobre, ou simplesmente da gente comum, não começa ou acaba nunca, porque não são atingidos e, por vezes, são também beneficiados.

Existe agora uma pergunta difícil, pouco popular e edificante nesta bela festa do trabalho: festa de qual trabalho? E de que trabalhadores? O trabalho é o grande denominador comum da democracia. É um elemento que nos une e que nos faz (num certo sentido) iguais aos de lá, ou aos de cá, das diversidades de salário, de papéis, de funções, classes sociais. E é também para apontar esta dimensão de igualdade entre os cidadãos que o trabalho cria - e que a ausência de trabalho, e os rendimentos, pelo contrário destroem - que nós quisemos escrever, e queremos continuar a escrever, como primeira palavra da República.

Por esta razão, hoje festejam, e podem festejar, os operários e os gestores de topo milionários; as mulheres que sustentam, trabalhando, maridos desempregados talvez mesmo arruinados pelas "slot machines" e os dependentes daquelas mesmas salas de jogo; os gestores de "hedge funds" e os operários que estão a perder o trabalho porque a propriedade em crise vendeu a empresa a esses mesmos fundos especulativos. Todos trabalhadores, todos em festa hoje. Mas se nos fecharmos a esta dimensão do trabalho e da sua festa, enquanto real e verdadeira, que não teria tomado a alma mais profunda deste dia ou, talvez, a do trabalho.

Se, de facto, é verdade que há qualquer coisa em comum entre o trabalho de Carlo, gestor superiormente bem pago e aquele de Ana, trabalhadora sazonal, são muito mais as coisas que estas duas atividades humanas não tem em comum, e que estão muitas vezes em conflito uns com os outros. Como há algo em comum, mas sobretudo tanta diversidade, entre Joana, que nestes tempos de crise está a drenar as poupanças de uma vida para não fechar a loja e despedir os seus dois funcionários, e os proprietários do hipermercado na periferia. Uma primeira coisa muito diferente entre Ana, Joana e Carlo chama-se poder, uma outra privilégios, uma outra chama-se direitos, outra ainda mais oportunidades, liberdades, salários e folhas de pagamentos, e talvez outra a alegria de viver (quem sabe qual será a maior diferença?!)

O trabalho expressa a substância da democracia, porque incarna as diferenças reais entre as pessoas, aquelas que contam verdadeiramente para a qualidade de vida e para a dignidade. E ele diz muito mais do que as finanças ou de que o consumo. Quando Luca, trabalhador, entra num concessionário e consome comprando (muitas vezes a crédito) um automóvel desportivo, o vendedor trata-o de um modo muito semelhante, em certos casos idêntico, ao muito rico ou ao seu "patrão" na empresa. Conduz pela cidade e sente-se, no seu belo automóvel, igual aos seus superiores hierárquicos, ao seu presidente de câmara, aos seus governantes. É esta uma dimensão da democracia associada ao consumo, essencial para entender o mundo moderno e a força simbólica e evocativa dos bens, mas muito frágil e superficial. Quando, de facto, aquele trabalhador desce do automóvel e entra no seu posto de trabalho, apercebe-se logo que não é verdade que seja igual ao seu chefe, e, efetivamente, se não tem um posto de trabalho seguro, ou se o perde, muda radicalmente o atendimento do concessionário e da financeira e Luca volta a assemelhar-se ao antigo servo.

Neste dia devemos então recordar que uma das principais esperanças e promessas da civilização moderna é aquela de associar, acima de tudo, o (justo) trabalho à redução das distâncias entre direitos, oportunidades, liberdades efetivas, dignidade entre as pessoas. E até há algumas décadas atrás essa civilização tinha também, pelo menos em parte, conseguido atingir essas esperanças e promessas, uma vez que as distâncias entre o operário da fábrica e o seu patrão eram menores do que aquelas entre o servo da gleba e o senhor feudal.

Os contratos de trabalho ligam entre si as classes, os interesses, as pessoas, dando vida a uma rede de solidariedade que envolve, ou deveria envolver, toda a sociedade e, um dia, o mundo. É também esta a verdadeira vocação social do trabalho, a sua altíssima dignidade: ser o cimento da sociedade, ligação de reciprocidade que une entre si os diferentes, que aproxima uns aos outros em relações de mútuo benefício e amizade civilizadora. Mas neste tempo de capitalismo financeiro, estas distâncias sociais e económicas voltaram a crescer, e os novos patrões estão, perigosamente, assemelhando-se muito, demasiado, aos antigos senhores feudais. Por estas razões a festa do trabalho é acima de tudo a festa da Ana, da Joana, do Luca.

Uma festa de todos, mas que é da parte de quem está ainda muito distante de Carlo, e que lhe coloca, pelo menos hoje, algumas questões difíceis, convidando-o, porventura, à conversão individual e de sistema. Um dia, este, que nos diz que não devemos ficar em paz até que as distâncias medidas com a fita métrica das liberdades efetivas, dos direitos, das oportunidades e da dignidade não forem reduzidas e, em muitos casos, anuladas. A Itália é uma República democrática fundada sobre o trabalho.


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Comentários - Esta Itália, este 1º de Maio

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 01/05/2013

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Este primeiro de Maio é uma festa mista. Mas sempre é uma festa, e é bom que seja assim. Uma festa com os cartazes do trabalho, e com os do não-trabalho. Uma festa acompanhada de lágrimas, por vezes verdadeiras depressões, dos desempregados, de quem perdeu o trabalho ou de quem, jovem, não o encontra. Hoje devemos escutá-los mais e melhor que ontem, pormo-nos a seu lado. Devemos festejar o trabalho, acima de tudo quando sofre e está em crise, porque as festividades são preciosas nos tempos da provação, quando se atravessam os desertos, quando nasce a nostalgia das "cebolas" da escravidão no Egito.

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Festa do dever e da esperança

Comentários - Esta Itália, este 1º de Maio por Luigino Bruni publicado em Avvenire  dia 01/05/2013 Este primeiro de Maio é uma festa mista. Mas sempre é uma festa, e é bom que seja assim. Uma festa com os cartazes do trabalho, e com os do não-trabalho. Uma festa acompanhada de lágrimas, por ve...
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Comentários - Esta crise é uma «grande depressão»: uma doença social

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 21/04/2013

logo_avvenireAs crónicas continuam a falar-nos de suicídios de empresários e de trabalhadores. Mas há também tantos, demasiados, verdadeiros suicídios de empresas, dos quais, pelo contrário, se fala muito pouco. Esta crise é mesmo uma 'grande depressão'. Nela encontramos todos os sintomas das depressões sérias: tristeza constante, falta de entusiasmo, desejo que se apaga, vontade de deixar correr e, sobretudo, ausência de alegria de viver, daquela vontade de se levantar de manhã com o gosto de enfrentar o dia, de encontrar as pessoas, de ter algo belo para fazer e contar a si próprio, à própria família, aos outros.

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O sentido da vida não é – e não deve ser – somente o sentido do trabalho, mas é também o sentido do trabalho e da empresa. Na China impressionou-me descobrir que a palavra com que no ocidente significamos 'business' é composta pela união de dois ideogramas, vida e significado: o sentido da vida. «Fiz nascer esta empresa porque tinha alguma coisa de belo para dizer», disse-me um dia um empresário.

Mesmo sendo empresário e trabalhando adquire-se sentido, significado e direção. E quando trabalho e empresa entram em crise, pode acontecer que não se saiba já para onde ir, se desoriente e assim se perca o porquê do caminho e das suas fadigas.

Há uma grande fadiga típica destes tempos. É a que vivem os empresários que procuram resistir às fortes tentações de vender a própria empresa, ou de fechar, desistir. Há empresas que é bom que sejam vendidas e por diversas razões. Porque a propriedade esgotou a sua força inovadora, porque o empresário entra na reforma/se aposenta e os filhos não têm intenção de continuar a obra ou porque é uma empresa que não tinha nascido de um projeto vital, mas do ter individuado uma oportunidade e, assim como foi percebida na “entrada”, pode-se perceber – se calhar em condições menos favoráveis – também na “saída”. E poderíamos continuar, com muitas outras razões de ‘boas’ vendas de empresas, que frequentemente produzem os mesmos efeitos da venda por parte dos herdeiros de uma rica e antiga biblioteca: desagrada, mas os livros são libertados, voltando a reviver noutros leitores, em novas bibliotecas.

Há também empresas que até é bom que fechem, porque simplesmente concluíram o seu ciclo de vida e a sua função, ou porque seria demasiado custoso e provavelmente ineficiente investir para esperar uma segunda vida ou porque nascidas mal, por finalidades unicamente especulativas. Para estas empresas valem as palavras escritas por Manzoni sobre a mulher Prassede: «Quando se diz ter morrido, está tudo dito». A responsabilidade de proprietários e instituições, no entanto, é fazer de modo que os danos sobre os trabalhadores sejam evitados ou limitados ao mínimo o que, infelizmente, quase nunca ou demasiado raramente acontece nos períodos recessivos.

Mas há empresas que não deveriam ser vendidas nem fechadas, porque têm ainda algo para dizer, histórias para contar, potencialidades não expressas, bons produtos. Hoje a muitas destas empresas está a acontecer este triste fim. Por detrás destas vendas ou encerramentos errados há frequentemente uma crise pessoal de um empresário, de uma empresária, de uma família, de um grupo de pessoas que a uma certa altura já não acreditam que a sua ‘criatura’ possa ter um futuro. Estas crises são parte da vida, mas na fase de depressão coletiva como a nossa, estas crises tornam-se muitas, mais duras, amplificadas pelo sentido de abandono por parte dos mercados, bancos, instituições.

Em muitos casos o empresário entra numa verdadeira prova moral ou espiritual e tem a impressão de ter conduzido a si mesmo, a sua família, os seus trabalhadores, a comunidade circunstante para uma aventura ingénua e errada, talvez ligada (assim o pensa) à soberba, orgulho, à inconsciência sobre os próprios limites e verdadeiros meios. Às vezes estas experiências são acompanhadas por doenças, cansaço, calúnias, denúncias e entrevê-se na venda ou até na liquidação da empresa o único caminho de salvação cobiçado. E assim, sobretudo quando a crise reduz faturação e margens, não se vê o momento em que chegue alguém e nos leve aquilo que, se antes era ‘sentido’ da vida, agora se tornou unicamente num peso, se não mesmo num beco.

Nestes momentos não importa quem, com quais capitais e com qual projeto, chegue este novo empresário/especulador, desde que convença os bancos e se calhar os sindicatos. E assim décadas, por vezes séculos, de história familiar, comunitária, de capitais de saberes, correm o risco de desaparecer, porque já não há força e condições para superar a prova e porque demasiadas vezes se está sozinho e deixados sós pelas instituições. É a empresa que se suicida e por vezes também, com ela, o empresário. Os dados sobre a má cessação destas boas empresas são graves, impressionantes. Há então uma necessidade extrema de criar ‘lugares’ para acompanhar estes empresários e trabalhadores que se encontram a enfrentar estas provas espirituais e coletivas.

As civilizações conheceram doenças sociais semelhantes e souberam curá-las (com os ritos, a arte, os mitos). Uma cura, e os seus lugares, que devemos procurar, depressa, também nós, Nestes novos lugares não são tão necessários consultores fiscais ou economistas e nem sequer as (muito necessárias) instituições mas peritos em humanidade, homens e mulheres capazes de esperança, que conheçam as mentes humanas e as saibam cuidar com a escuta das suas histórias e com (poucas) palavras.

Servem sobretudo comunidades curantes. E, em vez disso, na nossa cultura separámos demasiado o 'business' do resto da vida, os contratos dos dons, o eros do agape; e assim já não compreendemos que um empresário e uma empresária são antes pessoas e que sob uma crise empresarial pode esconder-se uma verdadeira prova moral e espiritual, que deve ser cuidada a esse nível, que é muito mais profundo e vital do que os 'business plan' e os empréstimos bancários (que porém, hoje, ajudariam e muito). Para restituir vida ao nosso 'business' doente é necessário então voltar a dar ‘sentido da vida’ e da sua empresa a tantos empresários e trabalhadores que o estão a perder.

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Comentários - Esta crise é uma «grande depressão»: uma doença social

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 21/04/2013

logo_avvenireAs crónicas continuam a falar-nos de suicídios de empresários e de trabalhadores. Mas há também tantos, demasiados, verdadeiros suicídios de empresas, dos quais, pelo contrário, se fala muito pouco. Esta crise é mesmo uma 'grande depressão'. Nela encontramos todos os sintomas das depressões sérias: tristeza constante, falta de entusiasmo, desejo que se apaga, vontade de deixar correr e, sobretudo, ausência de alegria de viver, daquela vontade de se levantar de manhã com o gosto de enfrentar o dia, de encontrar as pessoas, de ter algo belo para fazer e contar a si próprio, à própria família, aos outros.

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O sentido da empresa

Comentários - Esta crise é uma «grande depressão»: uma doença social por Luigino Bruni publicado em Avvenire dia 21/04/2013 As crónicas continuam a falar-nos de suicídios de empresários e de trabalhadores. Mas há também tantos, demasiados, verdadeiros suicídios de empresas, dos quais, pelo contrário...
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 Comentários - Para além da crise, recuperando visão e capacidade geradora. Também dos capitais.

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 14/04/2013

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As crises, sobretudo as profundas e graves, são um sinal de como uma comunidade civil ou económica esteja a esgotar a sua capacidade geradora e já não seja mais capaz de criar valor económico, civil, político, cultural, científico, porque perdeu os seus valores, já não sabe aquilo que vale. Há uma regra geral no coração da lei de evolução das civilizações e da sua economia: a força geradora do uso civil das riquezas apaga-se quando atinge o seu cume, porque os sucessos e os frutos, com o tempo, acabam por apagar aquela fome de vida e aquela esperança que os tinha gerado. 

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Isto não é só evidente pela análise histórica: basta ir de vez em quando à China (onde agora me encontro), às Filipinas, ao Brasil para ver que a raiz do seu (atual) desenvolvimento económico e civil toma linfa vital do entusiasmo civil e da vontade de resgate individual e social, que se exprimem também naquela alegria de viver que se respira nas ruas, sobretudo entre pobres e crianças.

Estes recursos morais e espirituais consomem-se, mas não se regeneram por si só e assim, após períodos mais ou menos longos, esgotam-se. É uma lei ao mesmo tempo implacável e providencial, porque é também um grande mecanismo que faz com que não sejam sempre os mesmos a subir ao carrocel do bem-estar e da prosperidade. Sobre o plano económico-civil, tudo isto faz com que nas fases civilmente positivas e expansivas, os capitais (stock) estejam ao serviço das rendas (fluxos): são os terrenos, as casas, os imóveis, as poupanças, os títulos / ações a estar em função dos rendimentos do trabalho (salários) e de empresa (lucros). Nestas fases felizes, os capitais existem e são importantes, mas estes capitais são postos a render, a circular e a frutificar pelo desenvolvimento e pelo bem comum.

A virtude dominante nestes períodos civilmente fecundos é a esperança que leva a olhar os capitais (reais e financeiros) como instrumentos a colocar em jogo, como talentos a traficar para que tragam fruto. Olha-se para os stock em vista dos fluxos. Veem-se os “cem” do valor do capital de hoje, mas quanto mais se veem os “cinco” que aqueles cem bem investidos poderão produzir, porque aquele rendimento / fluxo é um sinal da capacidade geradora da minha empresa, da minha vida. O primeiro sentido do bom cereal não é a sua acumulação nos celeiros. É também esta a diferença entre investimento e pura acumulação, e entre o empresário, o protagonista das fases expansivas e o especulador, protagonista de todos os declínios.

A riqueza geradora de rendimento torna felizes e fecundos, enquanto a riqueza acumulada por si mesma torna miseráveis e estéreis. Quando a cultura latina queria representar a felicitas os seus símbolos e as suas imagens eram as colheitas fecundas (Campania felix), os instrumentos de trabalho e as crianças que, hoje como ontem, são primeiro sinal da fecundidade feliz de famílias e povos. Tudo isto sabe-o bem também a grande cultura dos povos com a sua arte: quando quiseram representar o ícone da infelicidade individuaram-no mais no avarento do que no pobre, porque o avarento é um rico miserável que não conhece – ele com os seus haveres – o florescimento e a fecundidade, como os capitais deportados hoje para os paraísos fiscais.

Uma empresa, um sistema económico, uma civilização começam então a sua decadência quando o nexo entre capitais e frutos se inverte e a finalidade dos capitais se tornam os capitais.Na esperança introduz-se o medo, o sentido do cereal torna-se o celeiro e esquece-se de quem tem necessidade daquele cereal para viver e para trabalhar. Na linguagem da economia a grande crise começa quando os rendimentos (fluxos) são vistos em função dos capitais (stock), os lucros e os salários em função dos rendimentos. Assim os empresários transformam-se em especuladores, as elites que tinham determinado a fase virtuosa do ciclo económico-civil tornam-se castas, que dedicam as suas energias a conservar os privilégios adquiridos nos tempos passados. Nos períodos felizes prevalecem a confiança e a cooperação e olha-se para os outros como potenciais parceiros para novos e comuns empreendimentos. Nas fases de declínio olha-se com suspeição e o vizinho torna-se um rival, um inimigo que pode subtrair-nos uma fatia daqueles rendimentos. Os relacionamentos sociais tornam-se maus, os outros (não nós) são todos evasores e desonestos, o seu bem-estar torna-se uma ameaça para o nosso. E pelo contrário, nos períodos melhores, é exatamente “o mercado que nos ensina a ver com benevolência a riqueza e o bem-estar dos outros” (John Stuart Mill, 1848), porque contam os novos bolos e não a dimensão das fatias que criámos no passado. Na Itália hoje conseguimos até fazer pior: “conseguimos litigar para repartir futuros bolos que nunca criaremos”, confidenciava-me um empresário siciliano.

A nossa crise está então a dizer que estamos a delapidar os capitais de valores civis e religiosos que tinham operado os milagres económicos e sociais das décadas passadas. È necessário um novo milagre económico, civil, moral. Após a segunda guerra mundial os nossos pais e avós pegaram nos escombros produzidos por humanismos fratricidas e, com os seus valores, fizeram-nos tornar tijolos, pedras angulares das suas novas casas e da casa europeia. Se hoje quisermos ver um presente e um futuro possíveis e, quem sabe melhores, devemos encontrar os recursos para transformar os nossos escombros numa nova casa e numa nova eco-nomia. Os nossos escombros não feitos de cimento e cal mas também esta crise está, a seu modo, a destruir casas, fábricas, igrejas, está ceifando as suas vítimas, tem os seus heróis e a sua Resistência. Devemos encontrar os recursos par recolher os escombros e transformá-los em novos tijolos. E devemos cavar muito, porque as melhores pedras não estão á superfície: em parte estão ainda enterradas ou ignoradas porque – como a nossa vocação comunitária – foram consideradas pedras de tropeço e rejeitadas. Urge salvá-las, transformando-as em pedras angulares da nova casa, da nova economia, do novo trabalho.


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 Comentários - Para além da crise, recuperando visão e capacidade geradora. Também dos capitais.

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 14/04/2013

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As crises, sobretudo as profundas e graves, são um sinal de como uma comunidade civil ou económica esteja a esgotar a sua capacidade geradora e já não seja mais capaz de criar valor económico, civil, político, cultural, científico, porque perdeu os seus valores, já não sabe aquilo que vale. Há uma regra geral no coração da lei de evolução das civilizações e da sua economia: a força geradora do uso civil das riquezas apaga-se quando atinge o seu cume, porque os sucessos e os frutos, com o tempo, acabam por apagar aquela fome de vida e aquela esperança que os tinha gerado. 

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O cem e o cinco

 Comentários - Para além da crise, recuperando visão e capacidade geradora. Também dos capitais. por Luigino Bruni publicado em Avvenire dia 14/04/2013 As crises, sobretudo as profundas e graves, são um sinal de como uma comunidade civil ou económica esteja a esgotar a sua capacidade geradora e já ...
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 Comentários - Itália e Europa, fisco e empresa

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 07/04/2013

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Estamos caindo numa verdadeira armadilha de pobreza. A espiral agora está bem delineada: (1) o Estado endividou-se e deve encontrar recursos; (2) os recursos não vem do rendimento/PIB porque estamos em recessão; (3) não resta, senão, o agravamento fiscal principalmente sobre famílias e empresas; (4) a pressão fiscal exasperada reduz ainda mais a renda produzida; (5) são necessárias outras taxas para encontrar os recursos; (6) ainda menos renda e… por aí afora, numa espécie de dança macabra que se enrosca sobre si mesma e em direção ao fundo.

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E, como se não bastasse, as empresas não encontram crédito nos bancos bloqueados pelos seus próprios problemas (e miopias) e por regras externas. Ainda bem que, ontem, o governo Monti tomou uma medida - finalmente autorizada pela UE - que está destinada a pôr fim numa escandalosa opressão: as dívidas não pagas pela mesma máquina estatal que, com a outra mão, as molesta com uma pressão fiscal sobre as empresas que é quase o dobro da exercida sobre os rendimentos. Um teorema perfeito, que desempenharia um belo papel em qualquer tratado de economia que quisesse descrever a “crise perfeita” de um sistema econômico.

Tais “crises perfeitas” levaram ao declínio civilizações inteiras. Já sabemos que o caminho de saída real (não aqueles imaginados por ignorância ou propaganda) é um só: relançar o desenvolvimento econômico e por isso emprego, demanda e renda. Mas, na realidade, esta não é a solução, mas o coração do problema, porque para fazermos tudo isto, temos que afrouxar os vínculos impostos pela Europa sobre a equação dívida/PIB e permitir-nos investimentos públicos que nos consintam, daqui a alguns anos, retomar um sentido de verdadeiro desenvolvimento. Uma empresa que se encontra em crise grave pode e deve certamente reduzir os custos, mas se não investir e relançar um novo projeto de empresa não tem futuro. A crise ou é a aurora de um novo dia ou é o pôr-do-sol: urge estar atentos porque as cores do céu são semelhantes e podemos confundi-las.

Fico sempre mais convencido e, afortunadamente, em companhia de economistas como Amartya Sen - daquilo que nas páginas de "Avvenire" foi escrito mais e outras vezes: a Itália e os outros países em crise devem renegociar na Europa os conhecidos parâmetros  postos hoje pela Fiscal Compact e fazer nascer uma temporada de novos investimentos que relancem trabalho, empresa, competitividade e, antes de mais, escola e Universidade. As nossas empresas não estão “fritas”, podem partir de novo porque têm potencialidades ainda muito pouco valorizadas, entre as quais a sua cultura, arte, território, inteligências, turismo, sobretudo no Sul. Mas sem novos grandes investimentos de sistema e com uma visão (que hoje não existe), estes nossos imensos patrimônios não produzem rendimento nem emprego ou não produzem suficientemente.

Na armadilha em que caímos, os empresários, os trabalhadores, as famílias, sozinhos, não conseguem voltar a levantar-se: há uma urgente necessidade de uma ação pública decidida, forte, coerente, rápida. Mas há mais: os empresários e os trabalhadores estão exaustos e as energias restantes para resistir e não morrer verdadeiramente são poucas. E aqui, mais uma vez, é bom sermos claros: não existem álibis para ninguém, somente uma classe política e um Parlamento irresponsáveis podem assistir passivos a este cenário. Há depois um fator cultural a ter em conta. Se olharmos para a história damo-nos conta que as nossas classes dirigentes, na Itália e em muitos países latinos, não tiveram um olhar benévolo para com o trabalho, os comerciantes e as empresas. Olharam para os comerciantes como “Judas” (recorda - no-lo o título do belíssimo livro do historiador Giacomo Todeschini, 2011), ou seja, gente moralmente ambígua porque, exatamente como Judas, negociam com ‘finalidade de lucro’, por trinta dinheiros, por bens privados.

Ao invés, é bom o dinheiro despendido pelo Estado e pelos governantes, porque diferentemente dos mercadores, esse dinheiro tem como finalidade (diz-se) o Bem Comum, não o turpe lucrum. Assim, o débito público é diferente e moralmente melhor dos que os débitos e créditos privados, porque estes últimos nascem de interesses e egoísmos privados, enquanto o público nasce para o Bem Comum. Uma história antiga, de que não estamos sempre conscientes, mas que está bem enraizada na nossa consciência e práxis coletivas. Se, porém, quisermos sair da armadilha em que caímos, devemos olhar, política e culturalmente, para os empresários de maneira nova e diferente. Antes de mais, não vistos em oposição ao emprego, mas como seus aliados.

Depois, temos que deixar de confundir os verdadeiros empresários e a ação e vocação civil deles com os "especuladores" que destroem trabalhadores e ambiente e alimentam os “infernos fiscais” (mas não sabíamos já que os grandes bancos tinham filiais nestas ilhas infelizes, para operações offshore?). E nestas confusões os empresários continuam a ser considerados pela opinião pública como potenciais evasores e trapaceiros e, por isso, publicamente perseguidos. Estes são verdadeiramente pecados sociais, de que todos somos responsáveis se ficarmos passivos e calados.

É necessário um novo conceito sobre trabalho e empresários. E tópicos e sugestões que nos chegam ainda de Francisco e da tradição franciscana que, mesmo se pode parecer paradoxal, dada a renúncia por parte do pobre frade de Assis justamente na sua condição inicial de rico comerciante internacional - valorizou os comerciantes e a sua função social. Não os considerava “como Judas”, mas deu vida a uma Ordem terciária que incluía muitos deles. Aconteceu uma estranha afinidade eletiva entre os pobres por escolha e muitos comerciantes, sabedores acerca de dinheiro e de finanças.

Não se esqueça que em muitas cidades medievais, os comerciantes eram contados entre os pauperes, entre os pobres, porque não se beneficiavam de rendas, mas de rendimentos dependentes dos riscos do mercado, das suas incertezas e adversidades. Hoje como ontem, o empresário verdadeiro é alguém que arrisca os próprios talentos e recursos para criar bens e trabalho. E por isso é amigo dos pobres, sobretudo dos pobres de trabalho. Não vive de rendas e, por isso, se não cria e inova, cai por terra. E pode cair mesmo inovando e desempenhando bem a própria função: constamos isso muitas vezes nestes tempos de crise e de perseguições. A possibilidade da desventura é parte da condição humana, também dos justos, mas para estes pode não ser a última palavra. Vamos devolver a confiança e a estima aos empresários e, com eles, ao mundo da empresa que é o lugar onde o trabalho nasce, cresce, frutifica. E, como cidadãos, peçamos mais, muito mais à política e às nossas instituições nacionais e europeias: mesmo se hoje cansadas e desgastadas, só com elas

 

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 Comentários - Itália e Europa, fisco e empresa

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 07/04/2013

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Estamos caindo numa verdadeira armadilha de pobreza. A espiral agora está bem delineada: (1) o Estado endividou-se e deve encontrar recursos; (2) os recursos não vem do rendimento/PIB porque estamos em recessão; (3) não resta, senão, o agravamento fiscal principalmente sobre famílias e empresas; (4) a pressão fiscal exasperada reduz ainda mais a renda produzida; (5) são necessárias outras taxas para encontrar os recursos; (6) ainda menos renda e… por aí afora, numa espécie de dança macabra que se enrosca sobre si mesma e em direção ao fundo.

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Armadilha para desmontar

 Comentários - Itália e Europa, fisco e empresa por Luigino Bruni publicado em Avvenire  dia 07/04/2013 Estamos caindo numa verdadeira armadilha de pobreza. A espiral agora está bem delineada: (1) o Estado endividou-se e deve encontrar recursos; (2) os recursos não vem do rendimento/PIB porque esta...
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Comentários - Somos como Colombo antes de sua viagem para o novo mundo

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 24/02/2013

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Para poder, verdadeiramente, partir de novo, temos necessidade também de um mapa. Na segunda metade do séc. XV eram muitos os marinheiros que queriam tentar a exploração do Oceano em direção a Ocidente. Tinham que atravessar um mar inexplorado e para o qual não existiam obviamente cartas náuticas; e, no entanto, aqueles navegadores tinham necessidade de um mapa para partirem. Os marinheiros não partem sem um mapa do mar. Cristóvão Colombo decidiu partir não só quando encontrou o financiamento do empreendimento (como todos os empreendedores) mas também e, sobretudo, quando conseguiu um mapa do Oceano.

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Ofereceu-lho o florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli, grande humanista, astrônomo, comerciante de especiarias (também por isso interessava-lhe um caminho mais rápido para as Índias). Este fundador da geografia moderna e observador de cometas, trocou (talvez) correspondência com Colombo e muito provavelmente fez-lhe chegar uma sua carta náutica, um mapa do oceano até às Índias. Um mapa necessariamente impreciso e incompleto, mas decisivo para que Colombo pudesse ousar uma das ações mais extraordinárias da história humana. Dal Pozzo Toscanelli não era um navegador, talvez nunca tivesse saído de Itália, mas compunha os seus mapas baseando-se nas descrições dos viajantes com quem, em Florença, teria longas conversas, povoadas por factos verdadeiros e fantásticos (entre os quais o do lendário reino do Preste João). Aquele mundo novo – cada mundo novo – primeiro foi desejado, sonhado, quase visto e só depois alcançado. Aquele mapa nasceu, portanto, da escuta das aventuras de marinheiros portugueses, venezianos, espanhóis que diziam terem “visto”, talvez por fenômenos de miragem, terras emersas mais a ocidente das ilhas já conhecidas. O mapa e o empreendimento de Colombo foram certamente fruto de dois gênios mas fruto também de uma extraordinária sinergia de teoria, espírito, artes, ofícios, ciência, economia, de Florença e de Lisboa, da Itália e da Europa.

A nossa economia e a nossa civilização encontram-se hoje numa situação semelhante à de Colombo; mas desta vez navegar num mar desconhecido não é uma escolha, mas uma necessidade urgente, porque se não nos fazemos ao largo esperam-nos somente décadas de declínio e de deterioração das relações sociais. E não nos falta só a coragem civil, espiritual e política de Colombo e dos seus oficiais e marinheiros, nem só a fecundidades civil e económica da Itália e da Europa do séc. XV. Falta-nos também um Paolo dal Pozzo Toscanelli, capaz de nos desenhar um novo mapa. E falta-nos porque aqueles que o poderiam fazer (economistas, políticos, intelectuais …), já não são capazes de ouvir as histórias dos marinheiros, os contos dos viajantes, as histórias da nossa gente viva e verdadeira. O homem medieval e do renascimento sabia bem, como nos recordou também Cesare Pavese, que “os melhores poemas são os contados pelos marinheiros iletrados no castelo da proa” (Introdução a Mobydick), mas nós esquecemo-lo.

Se, ao invés, recomeçássemos a escutar as nossas histórias, poderíamos procurar pelo menos delinear algumas primeiras coordenadas deste mapa em falta. Uma primeira coordenada é a vocação mais verdadeira e profunda da nossa gente italiana e europeia: a comunidade. Os tecidos comunitários das nossas cidades empobreceram muito: precisamos de um projeto ético, político e civil para o recompor, regenerar e, em não poucos casos, reinventar. A solidão está a tornar-se uma nova epidemia que como a peste de Manzoni é de alguma forma democrática, porque atinge o pobre Tonio mas também Don Rodrigo, o malvado Griso mas também o santo Frei Cristóvão – hoje os mais atingidos pela solidão são gestores de topo e banqueiros, também quando estão circundados por aduladores e novos servos con master.

A segunda coordenada é uma nova escola. Fico sempre mais impressionado por quanto profissionalismo resiste nas nossas escolas, sobretudo mas elementares e infantis, onde profissionais continuam a ensinar por vocação e fidelidade à própria (belíssima) profissão, mas não sei ainda por quanto tempo. O novo governo – se o conseguirmos – se quer salvar verdadeiramente a Itália, deverá dar uma mão a uma reforma radical da nossa escola e da Universidade, com uma especial atenção ao Sul.

A terceira coordenada diz respeito á pobreza. A miséria e a exclusão na Itália e na Europa estão a aumentar, porque crescem as formas de má pobreza, muitas das quais se acumulam nas mesmas pessoas. Iríamos nos dar conta logo se o perguntássemos às pessoas, em vez de desperdiçar dinheiro público em danosas pesquisas pré-eleitorais. No passado fomos capazes de responder às tantas pobrezas que conhecemos graças a uma aliança entre as instituições e os carismas. Sem os carismas, as novas pobrezas não se vêm ou vêm-se tarde demais, quando a doença já avançou. Seriam necessários olhos carismáticos, como os de Don Benzi, para compreender há alguns anos que se estava a desenvolver um vírus de apostas e de jogos que depressa produziu a febre da finança especulativa e das salas de jogos (duas febres igualmente graves, não o esqueçamos). Novos e velhos  carismas que, pelo exemplo de Don Benzi, nos poderiam levar hoje às ruas a recolher jovens e idosos consumidos pelas slot machines, domésticas dependentes de raspadinhas, para as salvar e para nos salvar, também perante uma total ausência das instituições.

Serve-nos então urgentemente um mapa. E se não o desenhamos a uma certa altura ter-se-á forçosamente que partir e a viagem não será boa. Ou talvez já estamos navegando sem mapa e sem meta, e estamos vagando a mercê de Sereias e Ciclopi. Mas podemos sempre tentar fazê-lo a bordo, se logo que terminar este triste tempo eleitoral, fizermos silêncio civil e reaprendermos a escutar-nos, a ouvir a alma, o sangue e a carne da nossa gente. É só partindo daí que poderemos encontrar uma nova terra.


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Comentários - Somos como Colombo antes de sua viagem para o novo mundo

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 24/02/2013

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Para poder, verdadeiramente, partir de novo, temos necessidade também de um mapa. Na segunda metade do séc. XV eram muitos os marinheiros que queriam tentar a exploração do Oceano em direção a Ocidente. Tinham que atravessar um mar inexplorado e para o qual não existiam obviamente cartas náuticas; e, no entanto, aqueles navegadores tinham necessidade de um mapa para partirem. Os marinheiros não partem sem um mapa do mar. Cristóvão Colombo decidiu partir não só quando encontrou o financiamento do empreendimento (como todos os empreendedores) mas também e, sobretudo, quando conseguiu um mapa do Oceano.

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O mapa que precisamos

Comentários - Somos como Colombo antes de sua viagem para o novo mundo por Luigino Bruni publicado em Avvenire  dia 24/02/2013 Para poder, verdadeiramente, partir de novo, temos necessidade também de um mapa. Na segunda metade do séc. XV eram muitos os marinheiros que queriam tentar a exploraç...