Alma económica

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Alma económica / 3 – A lição do documento magistral fundador do princípio da subsidiariedade: aceitar os desafios do próprio tempo, sem o temer

por Luigino Bruni

Original italiano publicado em Avvenire em 25/01/2026

A Rerum Novarum (RN, 1891), a primeira encíclica totalmente dedicada às questões socioeconómicas, teve um valor simbólico muito maior que o seu conteúdo. O seu espírito foi muito mais importante que a sua letra. Disse que a vida económica e o trabalho eram parte integrante do pensamento e da ação da Igreja Católica: não estavam na periferia do humanismo evangélico, mas no centro. Milhares e milhares de católicos, finalmente, se sentiram vistos, compreendidos e reconhecidos pela Igreja no seu compromisso civil e económico. Já o sabiam, mas depois da RN souberam-no ainda mais e acabaram-se as dúvidas. O juízo histórico sobre o conteúdo da Rerum Novarum é, no entanto, uma operação diferente, que requer estudo e uma certa dose de coragem.

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Com a Restauração do antigo regime europeu, pretendido pelo Congresso de Viena, após o período napoleónico (1814), também o papado tinha esperado um regresso ao mundo anterior à Revolução Francesa, iludindo-se que o Iluminismo, o Liberalismo e o pensamento moderno pudessem ser apagados e, assim, voltar à Christianitas medieval, ao feudalismo e ao importante papel político que os papas e os bispos tinham desempenhado nos séculos passados. Mas aquela Igreja enganou-se. O mundo europeu já tinha mudado para sempre e, com isso, também o período do poder temporal da Igreja, a era da submissão dos Estados à autoridade religiosa terminara. Foi um longo e doloroso processo que a Igreja Católica, o papado in primis, viveu como ‘batalha cultural’ com a Europa moderna. Nessa fase, na Igreja romana não prevaleceu, portanto, o catolicismo liberal de Alessando Manzoni, nem a teologia de Rosmini ou o cristianismo aberto ao ‘novo’ do grande bispo de Cremona, Geremia Bonomelli.

A RN é um documento que apresenta algumas luzes, juntamente com algumas sombras. As luzes são luzes verdadeiras, importantes e muito realçadas na tradição social católica. Como diz o próprio título completo do documento – De opificium conditione (sobre a condição dos operários) – a condição dos trabalhadores é o focus do documento. De facto, ao trabalho e ao salário são dedicadas as páginas mais luminosas da encíclica, onde é reiterada a dignidade de todo o trabalhador, onde se pede um dia de trabalho não muito longo (in primis para crianças e mulheres), declarando que o jogo da procura e da oferta não pode ser o único critério para fixar o salário: «Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem, inclusivamente, a acordar na cifra do salário: acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga». (#RN27) Muito importantes são também os parágrafos da Encíclica que fundam o que depois será chamado o princípio de subsidiariedade: «Não é justo que o cidadão e a família sejam absorvidos pelo Estado: pelo contrário, seria justo que ambos tivessem o máximo de independência para agir, sem prejuízo do bem comum e dos direitos dos outros» (RN #28). Uma subsidiariedade conjugada como expressão do direito de associação, de modo especial das associações de trabalhadores (#32-35). Nem a Igreja de Leão XIII podia renunciar à comunidade e às comunidades; quis salvar a dimensão comunitária da Igreja e, com ela, a hierarquia eclesial, económica e civil.

Os aspetos mais obscuros da RN dizem respeito ao tema da igualdade entre os homens e, portanto, da sua visão da riqueza e da pobreza. Para os compreender, partamos também dos Princípios de economia política (1889) de Matteo Liberatore, publicados nas vésperas da Rerum Novarum. Aí é tratado o grande tema da propriedade privada e da desigualdade, ideias que são encontradas de forma muito semelhante na RN: Segundo São Tomás, em matéria de propriedade, é preciso distinguir duas coisas: a posse e o uso. Quanto à posse, ela pode ser privada; aliás, é necessário que seja, para utilidade da vida humana. Mas quanto ao uso, deve ser comum, na medida em que o proprietário faça com que os necessitados participem daquilo que ele tem em excesso» (Princípios…, p. 342).

Leão XIII, já na sua segunda encíclica, tinha afirmado teses muito semelhantes: «Socialistas, Comunistas e Niilistas … não param de proclamar que todos os homens são, por natureza, iguais entre si… A Igreja, muito mais sábia e utilmente, também na posse dos bens, reconhece desigualdade entre os homens» (Quod Apostoloci Muneris, 1878). É breve a passagem da defesa da propriedade à defesa das desigualdades (tese que reencontramos nos Princípios de Economia Política, de Liberatore – pp. 161-163): «Fique assente, em primeiro lugar, este princípio, ou seja, que devemos aceitar a condição inerente à humanidade: é impossível eliminar as desigualdades sociais no mundo». Depois continua: «Contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições» (RN #9).

O tomismo de Leão XIII e dos editores por ele escolhidos transparece também na ênfase dada à natureza social dos seres humanos e também na visão ‘organicista’ da sociedade, que está na base de muitos parágrafos sobre associações e sobre o corporativismo. No sistema tomista, a tese de que a sociedade é um corpo (S. Paulo) e, por isso, todas as partes são interdependentes, implicava a necessidade da hierarquia e a natureza estática dos lugares atribuídos a cada um (o dedo não é o coração e não podem trocar de funções), E, assim, a RN rejeita firmemente a luta de classes e, por conseguinte, a ideia de conflito entre patrões e proletários (RN #15). Desta visão harmoniosa das classes sociais, nasce também o convite de Leão para fazer renascer as medievais Corporações de artes e ofícios, que já encontrámos na encíclica Humanum Genus (1884). E depois, na RN, lemos: «Para resolver a questão dos trabalhadores … o primeiro lugar pertence às corporações operárias … com prazer vemos Nós irem-se formando por toda a parte sociedades deste género, quer compostas só de operários, quer mistas, reunindo ao mesmo tempo operários e patrões» (#29). Uma tese que hoje parece bizarra. Como se, em pleno desenvolvimento industrial e das massas operárias, se pudesse recuar cinco séculos, para uma economia de poucas cidades comerciais imersas no mundo feudal; como se a história e as suas ‘coisas novas’ nada tivesse para ensinar à Igreja, parte e filha da mesma história; como se aquelas reivindicações de igualdade não fossem, também elas, pelo menos em boa parte, fruto do próprio evangelho da Igreja.

Com a proposta das corporações, Leão XIII vai além do pensamento dos redatores italianos dos esboços da RN e inclui alguns pensadores europeus, como um ensaio de Alcide De Gasperi demonstra claramente (assinado com o pseudónimo de Mario Zanatta: Os tempos e os homens que prepararam a RN, 1931). Entre eles, alguns franceses; o marquês La Tour du Pin-Chambly de la Charce (1834-124), o conde De Mun e o empresário Léon Harmel, promotores do corporativismo católico, todos aristocratas. Nas corporações revitalizadas, o conflito de classes seria, portanto, ultrapassado sem distorcer a ordem natural da propriedade e da hierarquia: «haverá sempre entre os cidadãos essas desigualdades de condições, sem as quais uma sociedade não pode existir nem conceber-se.» (RN #18).

Como encerramento do seu discurso sobre proletários e patrões, Leão XIII escreve: «No cristianismo há um dogma sobre o qual, como alicerce principal, se apoia todo o edifício da religião: isto é, que a verdadeira vida do homem é a do mundo que há de vir. … Que abundeis em riquezas ou outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude» (#11). Por isso, «compreende-se que a verdadeira dignidade e grandeza do homem é toda moral, ou seja, colocada na virtude; é o património comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos… Para ir mais longe, parece que Deus tem uma particular predileção pelos infelizes, dado que Jesus Cristo chama aos pobres bem-aventurados… Assim, se obteria que as duas classes se dessem as mãos e as vontades se unissem na mesma amizade» (#13).

Lendo estas teses, devemos parar, porque nos encontraríamos longe do espírito do evangelho. Jesus curou os doentes, ergueu os paralíticos das suas camas, criou uma comunidade fraterna também na comunhão dos bens materiais, não os consolou deixando-os nas suas misérias, à espera do paraíso. Disse ‘ai’ dos ricos, deixou-nos a parábola do rico e de Lázaro e convidou-nos a passar pelo buraco da agulha. O seu Reino era e é, sobretudo, para esta vida, não para a que ‘há de vir’. O que escreve Leão era expressão da teologia da contrarreforma, o espírito católico do seu tempo. Depois dele, vieram o Vaticano II, Don Mazzolari e Don Zeno, Francisca Cabrini e Papa Francisco. Os católicos criaram poucas empresas corporativas; isso foi feito pelos fascistas. Mas criaram sindicatos, muitíssimas caixas agrícolas e cooperativas, onde mudaram e puseram em causa os direitos de propriedade do Capitalismo e reduziram as desigualdades possíveis nesta terra e continuam a fazê-lo. Foram além da letra da Rerum Novarum, escutaram o seu espírito, que também captaram nas exigências de igualdade do seu tempo e do nosso.

Hoje, estamos a atravessar tempos semelhantes. Não podem mais ser o medo e a saudade dos gloriosos tempos passados a escrever as novas Rerum Novarum.

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Alma económica / 3 – A lição do documento magistral fundador do princípio da subsidiariedade: aceitar os desafios do próprio tempo, sem o temer

por Luigino Bruni

Original italiano publicado em Avvenire em 25/01/2026

A Rerum Novarum (RN, 1891), a primeira encíclica totalmente dedicada às questões socioeconómicas, teve um valor simbólico muito maior que o seu conteúdo. O seu espírito foi muito mais importante que a sua letra. Disse que a vida económica e o trabalho eram parte integrante do pensamento e da ação da Igreja Católica: não estavam na periferia do humanismo evangélico, mas no centro. Milhares e milhares de católicos, finalmente, se sentiram vistos, compreendidos e reconhecidos pela Igreja no seu compromisso civil e económico. Já o sabiam, mas depois da RN souberam-no ainda mais e acabaram-se as dúvidas. O juízo histórico sobre o conteúdo da Rerum Novarum é, no entanto, uma operação diferente, que requer estudo e uma certa dose de coragem.

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O humanismo pelas “coisas novas” deve vencer a saudade e o medo

O humanismo pelas “coisas novas” deve vencer a saudade e o medo

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Alma Económica / 2 - Do Neotomismo para resistir ao impacto da cultura dominante até às ideias do Padre Liberatore que preparou a "Rerum Novarum"

por Luigino Bruni

Original italiano publicado em Avvenire em 18/01/2026

«É uma atitude anti-histórica por excelência considerar os problemas, opiniões e sentimentos do passado, da mesma forma que os sentimentos e convicções de uma era completamente diferente».

Arturo Carlo Jemolo, «Estado e Igreja em Itália», p. 23-24

A história da relação entre a Igreja Católica e a cultura moderna é a de um encontro falhado, de acusações e anátemas mútuos, que em certos momentos se transformaram numa verdadeira batalha campal. Uma história que começa pelo menos com Lutero e a Contrarreforma, e prosseguiu, a ritmos diferentes, até ao Concílio Vaticano II – e ainda continua. A reação da Igreja Católica perante o espírito moderno foi o medo, e destes contra-ataques, encerramentos, sentenças contra este hóspede perturbador. O homem moderno não foi, portanto, visto pela Igreja Católica como um filho, certamente rebelde, mas ainda assim um filho; em vez disso, foi visto como um inimigo, como o maior inimigo, os Gogue e Magogue que poderiam ter aniquilado a Christianitas. Nunca saberemos o que poderiam ter sido a Modernidade e a Igreja se o inimigo tivesse sido tratado como um filho adolescente, se as suas ameaças tivessem sido vistas também como desenvolvimento das sementes evangélicas da Idade Média, ainda que amadurecidas de modo e em terrenos diferentes dos imaginados pelas hierarquias e pelos teólogos. Na vida das pessoas e dos povos, a arte mais difícil de aprender é reconhecer uma salvação que chega onde e como nunca a teríamos pensado ou desejado.

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Também o processo que levou à Rerum Novarum de Leão XIII deve ser lido neste contexto de encontro falhado: “Leão XIII condenou o pensamento moderno, tão ousado em seu julgamento da religião e do catolicismo, mas não o confrontou: julgou-o de fora e de cima, tal como o seu antecessor, não entrou nele para o analisar, discernir, desagregar. Ambos se encontraram durante todo esse tempo como dois exércitos poderosos, sem entrar em contacto”. Estas são as palavras de Romolo Murri que continuou: “O pontificado de Leão XIII teria tido um carácter completamente diferente do que teve se os documentos doutrinários não fossem o que são: reivindicação rígida e exposição sistemática, não um trabalho de penetração no mundo moderno, de assimilação, de reintegração… A sociedade moderna mostrou não saber nem querer convencer-se a abandonar as suas ideias e caminhos para entrar nos que lhe são oficialmente apresentados pela Igreja”, porque a sociedade moderna “quer fazer a sua experiência” (Um papa, um século, e o catolicismo social, 1904, pp. 78-79). Uma experiência moderna que a Igreja Católica não compreendeu e condenou, a começar pela liberdade de consciência, o seu primeiro ‘delírio’, tal como já fora definido por Gregório XVI (Mirari Vos, 1832), que levava a pensar que “o fiel e o incrédulo, o ortodoxo ou o herege valem o mesmo” (M. Liberatore, A Igreja e Estado, 1872, p. 48). Um delírio chamado também Liberalismo. Estas ‘coisas novas’ não eram ‘coisas boas’ para a Igreja, eram muito más; a estas rapidamente se juntaram as grandes pressões do Socialismo e do Capitalismo, e tudo se complicou.

Neste clima, Gioacchino Pecci, ainda não Leão XIII, escrevia na carta para a Quaresma de 1877: “Uma palavra de que tanto abusam os descrentes… é a palavra Civilização. Esta palavra tornou-se um flagelo” (Cartas do Cardeal G. Pecci, 1880). E na véspera da Rerum Novarum, lê-se em La Civiltà Cattolica (uma mensagem anónima, mas provavelmente de M. Liberatore): “Não há homem sensato que não preveja que, a este ritmo, a Europa transbordará nos horrores do niilismo” (Ano 1889, p. 257). Romolo Murri, pelo contrário, esperava que aquela alvorada do século XX marcasse o início de algo novo, que as ‘coisas’ se tornassem finalmente ‘novas’ e boas. Por outras palavras, esperava que os católicos começassem a “lançar as suas ideias e o seu espírito na forja desta experiência da sociedade moderna, para que ela amadureça em sensatez, propósitos luminosos e uma vida religiosa mais intensa da humanidade” (pp. 80-81). O caminho seguido por Pio X, sucessor de Leão XIII, não foi o desejado por Murri, como mostra também a sua trajetória pessoal biográfica: dois anos depois da publicação do seu livro, Murri foi suspenso a divinis e depois excomungado em 1909. Pio X, beatificado por Pio XII, exacerbou o anti-modernismo já presente no catolicismo do século XIX.

A génese da Rerum Novarum faz parte de um movimento teológico-social muito complexo. Após o período napoleónico, a Igreja Católica iniciou, não sem resistências, uma parcial renovação teológica e cultural, centrada no regresso a São Tomás de Aquino e à sua teologia. A Rerum Novarum não será apenas fruto do regresso ao sistema tomista e à escolástica, mas não a compreendemos sem Tomás e o tomismo. Leão XIII iniciou o seu pontificado declarando explícita e politicamente a sua intenção de regressar a Tomás. A encíclica Aeterni Patris, de 1879, uma das suas primeiras encíclicas (ele escreveu oitenta e seis), foi de facto o seu manifesto teológico e pastoral para “fazer reviver e devolver ao esplendor primitivo a doutrina de São Tomás de Aquino” (AP). Vincenzo Gioacchino Pecci (Vincenzo era o nome com que a mãe o chamava) conheceu e abraçou o tomismo já em 1828, graças às lições de Luigi Taparelli d'Azeglio. Em Nápoles, em 1849, surge a Academia de filosofia tomista, e alguns anos depois (1879), em Piacenza, nasce a revista ‘Divus Thomas’. No círculo tomista italiano estava também Giuseppe Pecci, o irmão de Gioacchino, que fundou, em Perugia, a Academia de S. Tomás (1859).

Esta elite teológica percebia que a teologia católica tradicional e contrarreformista não podia resistir ao impacto do pensamento moderno. Para tentar enfrentar essa batalha cultural com alguma esperança de não sair aniquilada, havia uma única possibilidade: apostar tudo no melhor teólogo, o mais influente e universalmente estimado: Tomás, o Doctor Angelicus, e, portanto, Aristóteles. Estavam convencidos de que não havia melhor recurso disponível. Tomás já estava presente na formação teológica anterior (pense-se na Escolástica espanhola), mas estava misturado com a piedade popular, culto dos santos, Agostinho relido em chave platónica, manuais para confessores, e o estudo da teologia que estava bloqueado pela reforma do Concílio de Trento. Era necessário um relançamento, uma visão sistémica de conjunto: “Para que a sagrada Teologia possa assumir a natureza, forma e carácter de verdadeira ciência” (Leão XIII, Aeterni Patris). O neotomismo nasceu assim como reforma e inovação da Igreja, como reforma da formação dos padres. O tomismo, contudo, não interrompeu aquela longa época moderna, que a Igreja Católica viveu como uma cadeia ininterrupta de erros desde Lutero. Tomás não se tornou uma via de diálogo da Igreja com a modernidade, mas instrumento de luta.

Quando o cardeal Pecci se tornou Leão XIII, já era tomista. A presença da filosofia de Tomás na Rerum Novarum não se deve às ideias dos professores que escreveram os rascunhos preparatórios. Leão escolheu-os precisamente porque eram tomistas, além de serem os melhores do meio católico. Um deles, certamente o mais importante e influente, foi o Padre Matteo Liberatore. Natural de Salerno como Antonio Genovesi (que ele ignora, embora certamente o conhecesse), jesuíta, entre os fundadores da ‘Civiltà Cattolica – Revista de Cultura’ (1850). Coetâneo de Francesco Ferrara e de Gioacchino Pecci (muito resistentes: os três morrem todos com mais de 80 anos, Ferrara aos 90 e Leone aos 93). Brilhante escritor e polemista, entre os mais geniais pensadores do catolicismo do século XIX: “Encontra-se no centro dos momentos mais importantes da vida eclesial” (F. Francesco Dante, La civiltà cattolica e a Rerum Novarum, p. 49).

No final da sua vida, escreveu, em 1889, os Princípios de Economia Política, um volume antecipado em alguns artigos publicados na revista Civiltà Cattolica. Traduzido para inglês (1891) e francês (1899), mas que não teve qualquer impacto na ciência económica da época. Foi ignorado pelos economistas liberais. 1889 é também o ano da publicação dos Princípios da Economia Pura, de Maffeo Pantaleoni, o manual mais influente dessa geração, escrito quando o autor tinha 32 anos: Liberatore tinha quase 80 anos, outro indicador de modernidade. Liberatore não era um economista; o seu livro é essencialmente uma longa homilia económica, que deixou a ciência económica exatamente como a encontrou. Um tratado que é o ícone perfeito dos caminhos diferentes e divergentes que a Doutrina Social Católica e a economia moderna já haviam trilhado. Lendo o livro, percebe-se que é um diálogo do autor com alguns poucos livros – quase todos com pelo menos cinquenta anos – presentes no seu estudo: Smith, Say, Minghetti, Bastiat, Malthus, Ricardo, Sismondi… Nenhuma referência a Marx, difícil de imaginar na sua biblioteca. O livro é um excelente guia para entender a abordagem da Rerum Novarum, onde reencontraremos muitas das ideias deste texto de Liberatore. Mais útil para nós hoje do que para os seus contemporâneos.

O tom do livro reflete perfeitamente o da Igreja da época: tudo na defensiva, portanto polémico, agressivo, nostálgico. O início já é forte e claro: “O Liberalismo moderno é semelhante à mosca, que, onde quer que pouse, deixa um germe de corrupção e de fedor”. O Liberalismo não coincide com o Liberalismo económico – que Liberatore já chama de Capitalismo –, mas, como explicará mais tarde B. Croce, os dois estão profundamente correlacionados. A Igreja Católica odiará o liberalismo cultural, mas quase amará o liberalismo económico.

As páginas mais interessantes do Tratado são as que dizem respeito à propriedade privada, das quais emerge a intenção da Igreja da época de tentar imaginar a famosa terceira via entre socialismo e capitalismo. Na realidade, mais do que uma terceira via, tratou-se de uma tentativa de correção da primeira via, o Capitalismo, que na sua estrutura social e filosófica de base foi largamente preferido ao Socialismo, com alguns ajustes (nas relações patrão-operários, na beneficência, e pouco mais). O verdadeiro inimigo era, portanto, o Socialismo, e o Capitalismo aparecia como um mal menor e talvez até mesmo um bem, sobretudo pela sua defesa tenaz da propriedade privada e da desigualdade entre os homens como condição natural e necessária – veremos isso no próximo domingo. Por agora, fiquemos apenas com esta frase: “O mais curioso é que os defensores da igualdade apregoam ao mesmo tempo a liberdade. E não compreendem que liberdade e igualdade são conceitos incompatíveis” (p. 163).

A terceira via inaugurada pela Rerum Novarum tornou-se, portanto, apenas a via católica para o capitalismo. A Modernidade, que tanto assustava no plano religioso e social (Liberalismo e Socialismo), assustou muito menos na sua forma capitalista. E hoje vemos todas as consequências.

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Alma Económica / 2 - Do Neotomismo para resistir ao impacto da cultura dominante até às ideias do Padre Liberatore que preparou a "Rerum Novarum"

por Luigino Bruni

Original italiano publicado em Avvenire em 18/01/2026

«É uma atitude anti-histórica por excelência considerar os problemas, opiniões e sentimentos do passado, da mesma forma que os sentimentos e convicções de uma era completamente diferente».

Arturo Carlo Jemolo, «Estado e Igreja em Itália», p. 23-24

A história da relação entre a Igreja Católica e a cultura moderna é a de um encontro falhado, de acusações e anátemas mútuos, que em certos momentos se transformaram numa verdadeira batalha campal. Uma história que começa pelo menos com Lutero e a Contrarreforma, e prosseguiu, a ritmos diferentes, até ao Concílio Vaticano II – e ainda continua. A reação da Igreja Católica perante o espírito moderno foi o medo, e destes contra-ataques, encerramentos, sentenças contra este hóspede perturbador. O homem moderno não foi, portanto, visto pela Igreja Católica como um filho, certamente rebelde, mas ainda assim um filho; em vez disso, foi visto como um inimigo, como o maior inimigo, os Gogue e Magogue que poderiam ter aniquilado a Christianitas. Nunca saberemos o que poderiam ter sido a Modernidade e a Igreja se o inimigo tivesse sido tratado como um filho adolescente, se as suas ameaças tivessem sido vistas também como desenvolvimento das sementes evangélicas da Idade Média, ainda que amadurecidas de modo e em terrenos diferentes dos imaginados pelas hierarquias e pelos teólogos. Na vida das pessoas e dos povos, a arte mais difícil de aprender é reconhecer uma salvação que chega onde e como nunca a teríamos pensado ou desejado.

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A (difícil) terceira via católica entre capitalismo e socialismo

A (difícil) terceira via católica entre capitalismo e socialismo

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Alma económica / 1 - Desde o pensamento de Antonio Genovesi no século XVIII, herdeiro da tradição medieval, até ao longo eclipse do século XIX. Até ao século XX.

por Luigino Bruni

Original italiano publicado em Avvenire em 11/01/2026

«Um caminho importante a seguir é o de uma leitura diferente da história do pensamento económico, e em particular da tradição italiana, como já começa a ser feito, reavaliando Genovesi e outros economistas civis. Se conseguíssemos identificar uma tradição italiana, diferente daquela que se tornou oficial [mainstream], que tem a sua própria genealogia, esta seria uma operação de importância primordial».

Giacomo Becattini, «Bem-estar humano e empresas 'projeto'», 2002

Houve épocas da civilização europeia em que o amor, a dor, as experiências e os experimentos dos cristãos geraram palavras de carne que depois se tornaram encíclicas papais, documentos, revistas e livros que universalizaram e generalizaram o amor e a dor civis. Não teríamos tido a Rerum Novarum (1891) – ou teria sido muito mais pobre e menos influente – sem o movimento cooperativo, os bancos rurais, o movimento sindical, as ligas operárias, os grupos de ajuda mútua, a Obra dos congressos [Opera dei congressi]... Claro que as ideias teológicas do Padre Matteo Liberatore ou as ideias socioeconómicas do jovem professor Giuseppe Toniolo também foram importantes, mas primeiro foram os factos a filtrar, discernir, selecionar e valorizar as ideias de teólogos, dos filósofos, dos economistas e depois dos papas. No Cristianismo, não são as ideias que validam os factos, mas o oposto. 'A realidade é maior do que a ideia', não é apenas um princípio muito querido ao Papa Francisco, é acima de tudo uma síntese do Cristianismo, do seu humanismo fundado no Verbo que se tornou carne – o Logos não entrou na história tornando-se uma ideia, uma ideologia ou um livro, mas sim uma criança. As ideias são vivas, dão vida e só são capazes de transformar o mundo, quando são carne..

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Portanto, o impacto, a qualidade e a capacidade transformadora de um documento da Igreja dependem muito, quase totalmente, da qualidade e capacidade geradora de empresários, cooperadores, políticos, cidadãos, estudiosos, especialmente comunidades cristãs inteiras, que vivem e experienciam coisas novas na sua carne, individual e coletiva. A tinta 'simpática' dos documentos importantes da Igreja é o sangue das testemunhas e dos mártires. Estamos todos à espera da primeira encíclica social do Papa Leão, e estamos bem cientes de que este documento não será capaz de criar a realidade: poderá vê-la, dar-lhe asas, amplificá-la, conseguirá fazer alguns pequenos 'já' tornarem-se 'ainda não'; mas será novamente a realidade que a Igreja, e a humanidade, já estão vivenciando que dará qualidade e impacto às encíclicas de Leão XIV, tal como aconteceu com a Rerum Novarum de Leão XIII. Sem esta 'carne' e esta vida, as encíclicas são documentos em papel que não melhoram o mundo económico e social.

A série de artigos que começamos hoje é uma exploração da interligação entre economia e Catolicismo na Itália contemporânea, particularmente durante aquele longo século que nos levou desde meados do século XIX ao final do século XX, passando pelo socialismo, modernismo, guerras e fascismo com a sua doutrina económica 'corporativista', que também abordaremos. A economia e a religião católica serão, portanto, os dois eixos desta reflexão. Em alguns artigos prevalecerá a economia, noutros a religião, e em todos haverá diálogo entre as duas.

Dizer tradição económica italiana significa, acima de tudo, dizer Economia Civil, que é o nome que a ciência económica tomou desde o seu nascimento com Antonio Genovesi em meados do século XVIII, quando atingiu a maturidade uma tradição económico-civil que começou na Idade Média com o monaquismo, os mercadores, com os franciscanos e as suas doutrinas sobre a usura, os seus Monti di Pietà (NdT – Montepios) e Montes frumentários. Com o processo de nascimento do Estado unitário, essa antiga tradição do pensamento italiano (mas também europeu) sofreu uma rutura e, consequentemente, um longo eclipse. E a partir daí começamos.

Até ao início do século XIX, a tradição italiana da economia civil ainda estava viva e era estimada. Entre 1802 e 1816, o milanês Pietro Custodi publicou a 'Coleção dos Economistas Clássicos Italianos' em cinquenta volumes, uma obra fundamental para a difusão do pensamento económico italiano nas novas universidades e entre os novos políticos. Mas quando, em 1850, por iniciativa de Francesco Ferrara, que era o economista mais influente da sua geração, nasceu a Biblioteca do Economista, de um total de 13 volumes, apenas um destes (o terceiro) foi dedicado a economistas italianos. O clima cultural estava, efetivamente, a mudar rápida e radicalmente. Na sua Introdução a esse terceiro volume, Ferrara tem belas palavras sobre Genovesi, a quem, não por acaso, coloca como o primeiro autor do volume: "A mais antiga das cátedras de Economia em Itália, e uma das mais antigas da Europa, é a de Nápoles, de 1754, de Genovesi". Depois, dá-nos também algumas notas biográficas sobre Genovesi: "Desprezado pelos monges e padres das escolas, cuja ignorância servia de sombrio pano de fundo para a esplêndida fama deste padre inovador, que, evitando o latim tanto quanto podia, recorrendo a argumentos que se rebelavam contra as formas rígidas do silogismo, citando autores ingleses e franceses, pronunciando com um lábios igualmente impassíveis a verdade da Bíblia e a passagem do escritor herético, era, no entanto, entusiasticamente frequentado por uma juventude ávida...: este era Genovesi" (Vol. 3, pp. V-VI). Genovesi, também por indicação explícita de Intieri, o financiador da cátedra, lecionava de facto em italiano (não em latim), um facto inovador que não escapou a Ferrara: «Segundo o costume da época, Genovesi começou no dia seguinte a ditar as suas lições aos jovens; e ele próprio diz que parecia um milagre ouvir pela primeira vez um professor falar em italiano da sua cátedra", e denunciava "a culpa que os italianos têm em valorizar muito pouco a sua língua" (pp. VII-VIII), uma culpa que continua e se agrava até hoje. As belas palavras sobre Genovesi e a sua Economia Civil ficam por aqui.

Apesar da sua estima pessoal por Genovesi, para Ferrara, porém, a verdadeira ciência económica é agora apenas a dos ingleses e dos franceses. Genovesi e os italianos são apenas pré-história, antigo regime: "Os méritos da primeira fundação da economia pertencem ao Smith inglês, ou ao francês Turgot, não a Genovesi" (p. XXXVI). A tradição italiana, segundo ele, não tinha conseguido entrar na modernidade, porque ainda estava presa a preocupações morais e políticas. A economia, enquanto ciência autónoma tanto da moralidade como do 'príncipe', tinha sido fundada por Adam Smith, na sua obra Wealth of Nations (1776): "A antiga escola italiana não oferece nada que a possa recomendar como nossa predileção... Partilharei o sentimento de amor-próprio nacional, mas continuarei a estudar Smith para aprender economia" (p. XXXV). E assim conclui de forma coerente: "Se à Biblioteca do Economista tivesse sido atribuído um propósito menos vasto do que teve, talvez nenhum dos autores italianos que agora vemos incluídos neste volume tivesse entrado" (p. LXX). Uma tese muito forte e clara, que foi decisiva.

A não-modernidade de Genovesi encontrava-se, portanto, na sua escolha de enquadrar as questões de uma forma "ampla e complexa". O seu erro teria sido de método: não ter olhado para a riqueza do "ponto de vista abstrato e absoluto, mas do bem-estar geral", ou da felicidade pública. Para Ferrara, por outro lado, Smith foi o verdadeiro fundador da ciência económica moderna, precisamente porque abandonou este modo ‘amplo e complexo' para se concentrar apenas nas variáveis económicas – é o nascimento do homo oeconomicus (mais em Ferrara do que em Smith): «O mérito de Smith consiste em ter sentido a necessidade de abandonar ... as fórmulas amplas e complexas antes que outros o fizessem". E isto foi "um progresso imenso", foi "o Cogito da economia" (p. XL).

A referência aos economistas italianos do século XVIII era, portanto, para Ferrara uma tentativa de "cobrir a nulidade do presente com memórias passadas" (p. LXX). A nulidade era obviamente a do seu presente – meados do século XIX não foi certamente uma época de grandes talentos teóricos para a economia italiana – mas a tentação de regressar a um passado nobre quando o presente é pobre (como o nosso) está sempre presente. Por isso, o aviso de Ferrara é também importante para nós hoje, um convite para não nos consolarmos recordando os grandes pais na época dos pequenos netos.

Francesco Ferrara era um economista liberal convicto e filho do século de Darwin, de Marx e do positivismo, colega, no método, de John S. Mill. Para ele, a 'verdadeira' ciência da economia só poderia nascer ao renunciar ao Todo para estudar o fragmento, deixando de fora a 'felicidade pública' para se concentrar no custo de produção e na utilidade do consumidor. Ferrara foi a ponte por onde a economia civil italiana do século XVIII teve de atravessar para chegar à segunda metade do século XIX. Uma ponte muito estreita, quase como o buraco de uma agulha, que permitiu que muito pouco desse grande património clássico passasse, demasiado pouco para que qualquer vestígio permanecesse.

Após esta passagem, a Economia Civil saiu da academia, mas – e aqui está um ponto chave – também saiu do pensamento e da ação do mundo católico, dos seus economistas e sociólogos, dos cooperadores, dos sindicalistas, dos papas e bispos. Na verdade, a partir do líder Toniolo, a tradição católica que inspirará a Rerum Novarum e depois a Doutrina Social não estará mais ligada nem a Genovesi nem à Economia Civil, ignorados ou considerados demasiado modernos e distantes daquele neotomismo que guiará os muitos documentos. Não compreendemos a Doutrina Social da Igreja entre os séculos XIX e XX se não tivermos em mente que esta se desenvolveu durante o Non expedit de Pio IX e a polémica modernista de Pio X e seus sucessores até ao Concílio Vaticano II. Num clima de confinamento ao mundo moderno e aos seus pedidos por um estudo científico da Bíblia, também porque vinham principalmente de países protestantes. A este quadro já complexo juntou-se o nascimento e desenvolvimento do socialismo e do marxismo, que complicaram ainda mais o diálogo com o passado e com o mundo contemporâneo, consumindo muitas das energias dos católicos, provavelmente em excesso.

O desaparecimento da tradição civil italiana, mesmo do pensamento da Igreja, é uma das razões para o fracasso do catolicismo em acompanhar a modernidade e o seu antimodernismo que continuam a ser um problema sério para o mundo católico e o seu reflexo na economia e na sociedade. Aquele Genovesi que para Ferrara era demasiado pouco moderno por estar fascinado por 'fórmulas amplas e complexas', tornou-se, em vez disso, demasiado moderno e com categorias demasiado amplas e complexas para caber no tomismo recolocado no centro do pensamento da Igreja por Leão XIII. Juntamente com a Economia Civil, ficaram fora da Doutrina social católica, os franciscanos, o monaquismo, os mercadores toscanos, os Monti di Pietà e os Montes frumentários, Bernardino da Feltre e Muratori, juntamente com uma perspetiva bíblica séria. Tudo isto foi envolto numa noite escura que durou quase dois séculos, que abordaremos nestes artigos. Nesta longa noite, alguns anjos entraram juntamente com muitos fantasmas que ainda povoam os sonhos do mundo católico. Talvez seja hora de acordar.

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Alma económica / 1 - Desde o pensamento de Antonio Genovesi no século XVIII, herdeiro da tradição medieval, até ao longo eclipse do século XIX. Até ao século XX.

por Luigino Bruni

Original italiano publicado em Avvenire em 11/01/2026

«Um caminho importante a seguir é o de uma leitura diferente da história do pensamento económico, e em particular da tradição italiana, como já começa a ser feito, reavaliando Genovesi e outros economistas civis. Se conseguíssemos identificar uma tradição italiana, diferente daquela que se tornou oficial [mainstream], que tem a sua própria genealogia, esta seria uma operação de importância primordial».

Giacomo Becattini, «Bem-estar humano e empresas 'projeto'», 2002

Houve épocas da civilização europeia em que o amor, a dor, as experiências e os experimentos dos cristãos geraram palavras de carne que depois se tornaram encíclicas papais, documentos, revistas e livros que universalizaram e generalizaram o amor e a dor civis. Não teríamos tido a Rerum Novarum (1891) – ou teria sido muito mais pobre e menos influente – sem o movimento cooperativo, os bancos rurais, o movimento sindical, as ligas operárias, os grupos de ajuda mútua, a Obra dos congressos [Opera dei congressi]... Claro que as ideias teológicas do Padre Matteo Liberatore ou as ideias socioeconómicas do jovem professor Giuseppe Toniolo também foram importantes, mas primeiro foram os factos a filtrar, discernir, selecionar e valorizar as ideias de teólogos, dos filósofos, dos economistas e depois dos papas. No Cristianismo, não são as ideias que validam os factos, mas o oposto. 'A realidade é maior do que a ideia', não é apenas um princípio muito querido ao Papa Francisco, é acima de tudo uma síntese do Cristianismo, do seu humanismo fundado no Verbo que se tornou carne – o Logos não entrou na história tornando-se uma ideia, uma ideologia ou um livro, mas sim uma criança. As ideias são vivas, dão vida e só são capazes de transformar o mundo, quando são carne..

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Economia e Catolicismo na Itália, um século e meio de "coisas novas"

Economia e Catolicismo na Itália, um século e meio de "coisas novas"

Alma económica / 1 - Desde o pensamento de Antonio Genovesi no século XVIII, herdeiro da tradição medieval, até ao longo eclipse do século XIX. Até ao século XX. por Luigino Bruni Original italiano publicado em Avvenire em 11/01/2026 «Um caminho importante a seguir é o de uma leitura diferente da...